
Sou mulher, e daí?
Em um passado não tão distante, ser mulher era sinônimo de depender de algum homem. Cuidar da casa e dos filhos era o suficiente e qualquer coisa que ultrapassasse isso, até mesmo os serviços que as mulheres faziam para sobreviver – quando a renda familiar era muito baixa ou nenhuma, no caso das viúvas – como fazer doces, arranjos de flores e bordados por encomenda ou dar aulas de piano, era proibido ou mal visto pela sociedade. Mas tudo mudou quando a 1ª Guerra Mundial estourou, em 1914; Com os homens na guerra, ninguém mais ocupava as vagas de trabalho e assim, as mulheres tomaram seus lugares, principalmente nas fábricas. Depois disso, mesmo com os homens de volta, as mulheres nunca mais deixaram de trabalhar e se tornaram financeiramente independentes, fato que foi expresso inclusive através do modo como as mulheres passaram a se vestir (nova vida, novo guarda-roupa).
A partir daquela data, a mulher revolucionou muitos velhos paradigmas à sua volta: começou a lutar por seus direitos promovendo passeatas e protestos, “queimou sutiãs” (porque na verdade, isso nunca realmente aconteceu. As autoridades que controlavam o protesto aonde aconteceria este grande ato contra a ditadura da beleza não permitiram que o fogo fosse ateado às peças íntimas e outros artigos femininos que estavam lá para simbolizar uma libertação de padrões), conquistou seu direito de voto (aqui no Brasil isso aconteceu em 1932!) e passou a ter domínio sobre seu corpo, tanto na forma de se vestir – o primeiro biquíni visto em público passeou pelos olhares parisienses com a stripper Micheline Bernardini em 1946 – quanto na forma de cuidar de sua vida sexual – a primeira pílula anticoncepcional começou a ser comercializada em 1960.
Mesmo com tantas mudanças durante a década de 1970, constatando claramente que a mulher já fazia parte do mercado de trabalho e crescimento do Movimento Feminista na década de 1980, o preconceito ainda existia e era fortíssimo, inclusive dentro da publicidade, como mostra a série Mad Men. As mulheres já faziam parte do corpo de trabalho e eram importantíssimas em muitas profissões, mas ganhavam menos reconhecimento salarial e moral que os homens. Essa realidade triste e absurda infelizmente perdurou e está presente até nos nossos dias.
Mesmo em pleno século XXI as mulheres ainda sofrem forte preconceito em algumas áreas de trabalho. Na publicidade não é diferente: as diferenças salariais chegam a mais de R$2mil entre homens e mulheres em alguns setores. Apesar de representarem 50% da força de trabalho dessa profissão, pouquíssimas mulheres entram para o setor de Criação ou qualquer outro que não seja Atendimento ou secretaria, porque diz-se que publicidade é como um “clube do bolinha”. Um fato que pode evidenciar isso é que o concurso de Cannes tem apenas mulheres como juradas, enquanto têm 14 homens.
A presença feminina é gigante hoje na propaganda. O fato é que as mulheres tem um fator a mais que os homens. Joana Monteiro, diretora executiva de criação da Giovanni+Draftfcb, em uma entrevista para a revista Exame afirmou que
“As mulheres são multitarefas, focadas, objetivas. Também são boas em aproveitar o tempo; O que é uma necessidade, já que também queremos tempo para ser mães, e isso já começa a ser visto pelas empresas mais modernas como uma vantagem. É que o papo da dedicação absoluta ao trabalho ficou velho. Todo mundo quer conviver com gente de verdade, que tem família, filhos, que é bom pai, bom filho, que tem que cuidar da saúde, que quer se divertir, viver.”
Ser mulher não vai te impedir de crescer profissionalmente se você for comprometida com o trabalho e tiver paixão. Como dizia Claude Hapkins: “A publicidade não é campo para homem preguiçoso” – nem para mulheres.
